Uma das mentes mais brilhantes da crítica de arte do século XX, Leo Steinberg faleceu em Nova York no último domingo, 13/3, aos 90 anos. Especialista em arte renascentista e barroca, o autor compreendeu também a produção moderna – escrevendo sempre de forma eloquente e inspiradora, sua pena aguçou a mente de diversas gerações de estudiosos, críticos e artistas que o receberam como um grande ensaísta.
Nascido em 1920 em Moscou, educado em Berlim e Londres, Steinberg obteve em 1960 o doutorado pelo Instituto de Belas Artes da Universidade de Nova York. Durante a vida acadêmica, passou ainda pela City University of New York, pelo Hunter College e pelas universidades de Harvard e Pensilvânia. Em 2008, a Cosac Naify publicou um de seus livros mais importantes, Outros critérios: confrontos com a arte do século XX, que reúne 13 ensaios produzidos entre os anos 1950 e 70 – a edição brasileira é selada por um prefácio escrito por Steinberg especialmente para esta casa editorial.
Em homenagem ao crítico, disponibilizamos para leitura um dos ensaios do livro, “Os crânios de Picasso”. Nele, Steinberg analisa em prosa envolvente as imagens de crânios pintados e esculpidos pelo artista, recorrendo para tanto a passagens biográficas como a que destacamos a seguir. É digno de nota que, para narrar este trecho, Steinberg resgatou as memórias de um grande amigo de Picasso, Roland Penrose (esta convivência renderia a seu filho, Antony Penrose, o livro O menino que mordeu Picasso, sobre o qual já falamos por aqui).
“(…) em 1940, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, os crânios entraram seriamente em sua arte. A morte real estava do lado de fora, o medo real ancorado dentro, e, assim, a iconografia de Picasso concentrou seu foco sobre ele.
(…) No auge da guerra, de volta a seu ateliê de Paris e adentrando os 63 anos, Picasso começou a trabalhar no bronze de uma Caveira em escala maior que a natural. Amigos leais mantiveram um fluxo clandestino de sucata de metal para o seu ateliê, e Picasso temeu pelo destino de seus bronzes quando os oficiais alemães o visitaram. ‘Eles não servirão para fazer suas armas enormes’, disse nervosamente. ‘Não’, um deles replicou, ‘mas poderiam fazer armas pequenas.’
A Caveira de bronze sobreviveu. É provavelmente a mais poderosa escultura maciça da arte do século XX.”
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